Olá pessoal, apesar do atraso de um dia, ai esta o segundo capítulo de O Olho da Tempestade desta semana, sendo este capítulo bem maior do que o primeiro, rendendo um tempinho maior de boa leitura.

Capítulo 2º – Cerveja Ruim

A taberna estava cheia. O estabelecimento era pequeno e sujo, mas animado. Não haviam portas, apenas cortinas feitas de um tecido encardido que separavam as divisas, até mesmo as com a rua. Diversas mesas de formatos irregulares, cercadas por cadeiras da mesma laia, encontravam-se espalhadas sob o piso, de chão batido. Um balcão mínimo, aonde moscas se deleitavam sob a cerveja já seca sob a madeira, se encontrava logo a direita de quem atravessasse a cortina que servia de “porta” para o local. O balcão contornava todo o lado direito até chegar à parede oposta da rua, aonde uma “porta” levava ao que ele imaginou ser um depósito, ou cozinha. As paredes eram feitas de madeira, podre, apoiada sob pedras, cheias de limo, similares as vigas que, espalhadas pela taberna, sustentavam o teto. Outra “porta” do lado oposto suspeitava ele, deveria levar as latrinas, já que o constante movimento de homens a fechar os botões da calça pelas proximidades levantavam essa suspeita.

A viagem havia sido um inferno, simples assim. Dois meses trancafiado dentro do casco de um navio, cercado por idiotas, covardes, assassinos e outros tipos “agradáveis”. Os mantimentos que adquirira o sustentaram pelo primeiro mês, no mês seguinte no entanto, apenas a disciplina o impediu de surtar desesperado por alimento e água. Metade dos passageiros matou a outra metade. Impressionante como aquelas coisas conseguiam rebaixar-se a ponto de matarem um igual para se alimentarem. “Vermes.”

Percebeu ele então que as pessoas, algumas de forma discreta, outras não, o observavam parado frente a “porta”. Ele conseguia ouvir a balburdia e as conversas, mas ali residia seu primeiro obstáculo, não entendia a língua local. Nem os costumes. Não entendia nada. Estava ali, como sempre quisera, pelas próprias pernas, e sobreviveria pelos próprios méritos. Ou não voltaria para casa. Pelo menos não vivo.

Uma mesa logo a sua direita estava sendo ocupada por três marujos, como os que vira no Violador. Havia uma cadeira vaga entre eles. Fora esse local, havia apenas cadeiras esparsas nas mesas mais ao fundo da taberna. O balcão estava lotado. A idéia de atravessar o local para sentar-se era incomoda, não passaria entre as mesas, tão próximas entre si.

Sem cerimônias, dirigiu-se até a mesa ocupada pelos marujos, e sentou-se na cadeira vaga. Como se despertassem da alucinação do álcool, os três encararam o sujeito que uniu se a eles. Um deles levantou a sobrancelha e falou algo para os outros dois, o outro respondeu ao que o primeiro disse com os olhos arregalados, o terceiro, no entanto, com o rosto já rubro apontou-lhe o dedo e começou a falar rapidamente, respingando saliva pela mesa.

Estava sendo insultado, era obvio. Embora não entendesse o que o homem dizia, no mínimo suspeitou que se tratasse de adjetivos a sua genitora. Tanto que a balburdia da taberna diminuiu, e o foco da atenção tornou se a mesa e o homem a, evidentemente, o insultar, que já se encontrava de pé. Os outros dois levantaram-se e trataram de puxar o homem para longe.

Como uma fonte súbita de inspiração e coragem, ele se desvencilhou dos dois e avançou para cima de Adalon, empurrando a mesa para o lado, fazendo as pessoas da mesa próxima afastarem-se num salto.

Ainda sentado, Adalon pode medir as conseqüências dos atos. Se revidasse o homem o local, que era um poço de confusão, viria abaixo. Tal desordem provavelmente chamaria atenção dos que mandavam no local, fosse quem fossem, e poderiam não ser agradáveis as conseqüências. O homem avançava ainda na sua direção, agora livre dos amigos e da mesa, com a garrafa em mãos. Permanecer-iria sentado.

A garrafa veio na horizontal, tentando atingir Adalon no rosto. Inclinando a cabeça para frente, sentiu a garrafa raspar no capuz do manto. Olhando para baixo, percebeu que o homem, ao errar o golpe, acabou virando-se de costas. Levantou-se por fim.

A taberna ecoou num grito uníssono assim que levantou. Uma estranha expressão que parecia dar a ligeira sensação a quem ouvisse, de que alguma pessoa iria se machucar, e bastante. Agarrou o homem por trás, puxando-o pela barriga até sentisse o encostado no peitoral da armadura. Deslizou a mão esquerda até o pescoço do mesmo e o levantou no ar.

Sua mão esquerda não era uma visão agradável. Coberta por uma manopla feita do mesmo metal que a sua armadura, e repleta de cravos e espinhos, alguns ainda manchados de sangue seco. Totalmente negra, a parte mais assustadora no entanto eram as laminas feitas de um cristal azulado que integravam a ponta dos dedos, funcionando como garras, e tinham aproximadamente um palmo de cumprimento.

Não era pesado. Era até leve, um Worg pesaria mais, e ele era acostumado a arremessar Worgs. Tirando a mão direita do manto, apontou para a mesa que estivera a sua frente, e fez uso de uma das poucas palavras que aprendera na língua daquela espécie tão fútil, e talvez a mais útil.

- Meu – falou Adalon.

Parte da taberna desabou em risos. Indiferente do motivo, tanto fosse do que havia dito, tanto pela reação do homem. Não conseguia sequer mover-se, no entanto balançava a mão como se quisesse dizer algo. Soltou-o no chão por fim. O homem não conseguiu ficar em pé, caindo de joelhos e logo auxiliado pelos outros dois, que sem dever nada ao tempo, o arrastaram para longe dali. A taberna continuava retumbando as gargalhadas.

Sentou-se por fim, e ajeitou a mesa a sua frente. Jogou a mochila sob uma das cadeiras e depositou o embrulho que carregava nas costas sob a cadeira, escorado. As risadas cessaram, os olhares diminuíram, e lentamente Adalon percebeu que as pessoas tentavam evitarem ser flagradas olhando na sua direção. Medo.

Soltou as fivelas do peitoral relaxando a pressão sob o peito. Jogando o manto para o lado, retirou da cinta cinco pequenos machados que com freqüência usava, depositou-os na mesa e passou a limá-los, com uma pequena pedra que carregava no bolso.

Logo foi interrompido. Uma fêmea parara a seu lado. Parecia ser jovem, mas mal cuidada. Suas vestes estavam quase limpas, salvo pelas manchas no avental, poder-iria dizer-se que recém foram lavadas. O corte na blusa no entanto ressaltava os dotes da mesma, deixando um vigoroso pedaço de sua modéstia de fora. O suficiente para desarmar um idiota. Não um idiota como ele, pelo menos.

Enquanto a encarava, tentava entender o que ela dizia. Percebeu que ela repetira o mesmo som por varias vezes, com as mesmas palavras. Incompreensíveis. Olhou rapidamente para o local. Percebeu que numa mesa próxima, uma mulher um pouco mais velha, mas também de avental, e com uma blusa mais discreta, fazia a mesma pergunta a alguns homens. Prestou atenção na resposta deles, apenas de um deles, era um som longo e com uma entonação estranha. A velha retirou-se não muito feliz. Ele olhou para a jovem a seu lado, e com esforço repetiu o que ouvira.

- Estas a cada dia mais horrível velha. Vistas uma blusa mais curta – dizia ele, lentamente – quem sabe assim olhem menos para tua cara. E me tragas uma cerveja.

Falou baixo o suficiente para que apenas a mulher no seu lado ouvisse. Assim que terminou de repetir o que ouvira, voltou a afiar as machadinhas. Demorou alguns segundos para perceber que a mulher ainda estava parada a seu lado. Fitou lhe o rosto, percebendo uma expressão de surpresa mista com tristeza. Algumas lagrimas teimavam em se formar nos olhos castanhos e surrados. Ele a ignorou. As armas precisavam ser afiadas. Demorou mais algum tempo até que a mulher dali saísse. Enfim em paz.

As machadinhas estavam em ordem, afiadas e limpas. O peitoral estava coeso e sem ferrugem. As roupas ainda estavam inteiras, mas ostentando um odor desagradável. O embrulho estava fechado como deixara desde que embarcara. Limpou as garras da manopla e tornou a afiá-las.

A mulher retornou então. Com o rosto limpo, havia água perto das bochechas, havia lavado o rosto. Os olhos estavam vermelhos. Chorara. Decididamente, pensou ele, escolhera as piores palavras para repetir. Problema dela. Percebeu finalmente que ela não se tratava de uma fêmea típica do povo da cidade. O rosto era anguloso, os olhos eram amendoados e as pupilas maiores. Era esbelta e magra, e de alguma forma bem mais graciosa em seus gestos que as demais pessoas. Procurando ver-lhe as orelhas, percebeu do que se tratava. Era uma elfa. O cabelo preso num coque tapava a ponta das orelhas, mas não escondia o formato.

Ela removeu um recipiente de madeira de uma bandeja em mãos, e o colocou na frente de Adalon. E emitiu outro som, que ecoou com certo desdém.

Decidindo não arriscar e repetir algo que pudesse causar problemas. Gesticulou para que se afastasse. Ela tornou a repetir o mesmo som. Ele tornou a gesticular. Ela falou novamente, desta vez havia raiva na voz. Talvez ela entendesse que ele também estava com raiva.

Fechou o punho direito e golpeou a mesa, lascando um pedaço da mesa. Voltou o rosto na direção da mulher, ainda que usasse o manto, fitou-a de modo que ela pudesse ver seus olhos, e gesticulou para que ela se afastasse. A mensagem foi entendida. De raiva a mulher passou a demonstrar medo, balançou a cabeça verticalmente e foi na direção de outra mesa.

“Maldição.”

Olhou em volta novamente. Chamara atenção de novo. As pessoas próximas o olhavam com desconfiança, medo, e ódio. Isso ele entendia, não havia um maldito lugar no mundo aonde forasteiros fossem bem vistos. Curioso, porém, era o olhar interessado que uma mulher de cabelos rubros lhe dirigia. Sentada no canto esquerdo ao fundo, acompanhada de outras pessoas, ela lhe olhava com interesse. Retribuiu o olhar. A mulher desviou e conversou algo. Discretamente acenou na direção de Adalon, um homem olhou na direção dele, tornou a olhar para a mulher e conversou algo.

Estavam falando a respeito dele. “Maldição Desgraçada” pensou, chamara atenção demais. Agora era tarde demais, provavelmente a confusão iria começar logo, com sorte talvez ele dormisse inteiro. Tornou a olhar na direção da ruiva, não a encontrando, suspirou. Iriam caçar-lo. “A maldita ruiva deve ter ido chamar mais alguém”.

Olhou na direção da porta, ninguém saia. Ao menos não alguém cujos cabelos lembrassem o fogo. Da mesma maneira os que entravam sequer lhe olhavam. Ao menos não demonstravam nada mais que espanto ou curiosidade ao lhe ver.

Percebeu alguém parado a sua esquerda. Sua visão periférica acusou tratar-se de uma silhueta feminina. Tirou a mão esquerda da mesa com delicadeza e eriçou as garras. Ouviu alguém falar algo a seu lado. Não entendeu nada. Mas percebeu que a ruiva que o encarava estava ali, parecia simpática, falsamente simpática.

“Maldição Desgraçada Infernal, vão me armar uma cilada.”

Fitou a mulher. Esta sim era digna de desarmar idiotas do nível dele. Os cabelos ruivos lhe caiam nos ombros, repartidos ao meio. As orelhas pontudas e longas indicavam a linhagem élfica, estavam repletas de brincos de argolas. O rosto anguloso e delicado combinava com os olhos também vermelhos. A pele pálida e bem cuidada aparecia pela armadura de couro. Usava botas altas, um colete de couro negro, cujo decote mínimo lhe deixava curioso. Longas luvas que terminavam numa alça nos ombros. Uma cinta repleta de bolsos ocultava a pequena tanga de couro. Uma capa marrom-sangue descia até os joelhos. Estava armada, embora Adalon não considerasse uma arma com menos de cinco quilos uma ameaça, as pessoas ao redor pareciam considerar.

“Bolsos! Esse cheiro de enxofre… Maldição Desgraçada Infernal do Abismo,só pode que é uma conjuradora!Dia de cão!”

Ali ela permaneceu, o fitando, com um falso sorriso no rosto e cheia de simpatias. Tornou a falar algo, entoou diferente, no entanto parecia que ela queria dizer a mesma coisa. Continuou a lhe fitar sem nada entender. Ela falou novamente, som diferente, mesmo sentido. “Evidente, ela esta falando outra língua.”. Não entendeu nada de novo. Ela tornou a falar algo, entendeu alguns pedaços, era uma língua harmônica e melodiosa, Élfico. O problema é que ele não sabia qual dialeto de Élfico ela falava. Ela tentou uma ultima vez, em uma linguagem mais rude. Não entendendo, Adalon apenas balançou os ombros, olhou em frente, e arriscou-se a bebericar o liquido do recipiente que lhe serviram. Amargo, morno e ruim, mas como todos ali bebiam sem fazer cara feia, decidiu manter a aparência. A ruiva virou-lhe as costas e começou a se retirar, aparentemente desistira.

Como suspeitava. Todos ali o tratavam como mais um ignorante. Havia mais de uma dúzia de línguas comuns em diversos lugares, aonde qualquer mortal culto poderia comunicar-se sem os empecilhos dos dialetos. A própria magia tinha uma linguagem única.

- Se quiser – disse Adalon – eu também falo Draconiano.

A ruiva parou. A reação dos ombros e do corpo denunciou uma espécie de espanto. Definitivamente ela não imaginara que ele pudesse conhecer a língua dos Arcanos. Até demonstrou algum receio, talvez arrependimento, mas logo tratou de disfarçar.

- Perdão – disse ela, falando um Draconiano arrastado e imperfeito – não imaginei que pudesse…

“Idiota! Claro que não arriscou Draconiano, com essa pronuncia, é de se ter vergonha alheia.”

- Que alguém com mais de dois metros – cortou Adalon – dominasse Draconiano?

- É algo inusitado – disse lhe a ruiva – incomum eu diria.

Adalon balançou a cabeça verticalmente, tal qual a elfa que o servira fizera. E bebericou mais um pouco daquele liquido tenebroso.

- Posso sentar-me – perguntou a mulher já a seu lado, apontando para uma das cadeiras vagas.

- Tanto faz – respondeu Adalon.

- Ou prefere que eu permaneça em pé. – disse ela, ironizando.

“Brincando com meu ego? Cadela.”

- Prefiro-te sem as roupas! – respondeu Adalon, sem demonstrar malicia – mas se não for possível, então senta-te de uma vez.

“Morta também”

A mulher riu, puxou a cadeira e sentou-se. E ali permaneceu alguns minutos a olhar na direção dele. Depois, passou a olhar para os machados, o embrulho e por fim para o recipiente quase cheio, o qual Adalon teimosamente tentava beber.

Ignorou a mulher. Conhecia o tipo. Sabia como agir. Percebeu então que após alguns goles, aquela horrível bebida parecia agradável. Dava-lhe uma tranqüilidade, que sabia ser falsa, e o acalmava. Sentia-se mais, confiante. O sabor era tolerável, e o efeito ficava mais forte a cada gole. Era perigoso.

- És um “Mercenário”? – perguntou-lhe a mulher.

A palavra Mercenário não era em Draconiano. O som e o formato da pronuncia pareciam com as palavras e sons que as pessoas ali repetiam. Alias lembrava-se de uma ou outra pessoa ter dito a mesma palavra durante a viagem. Talvez não fosse um insulto. Matara alguém a troco de nada. Uma lástima.

- O que seria um “Mercenário”? – respondeu Adalon.

A mulher sorriu, quase riu. Após passar o momento, tornou a ficar séria e a fitar Adalon. Estava confusa. Ele também, em outras circunstâncias não teria permitido que alguém descobrisse sua falta de conhecimento. Era culpa daquela bebida mal-cheirosa. Mas não conseguia parar de beber.

- É como atendem – explicou ela – aqueles que por dinheiro, executam determinadas tarefas a mando de quem os paga.

Não era seu caso. Ele não era um “Mercenário”, era um soldado. Não executava tarefas a mando de quem pagava, executava tarefas a mando do superior, e por amor a nação. Mas uma vez longe de Elsur. Uma vez dispensado do exército. Aquele século e meio que batalhara pela nação pareciam distantes. Ele não tinha dinheiro local, e precisava. Não conhecia ninguém ali. E pelo interesse da mulher, talvez ela lhe fornecesse dinheiro por um serviço e outro, havia pouco que ele não pudesse fazer.

- Sim – respondeu enquanto bebia a cerveja.

- Estás a serviço de quem? – tornou-lhe, a mulher, a perguntar.

- De quem pagar mais. – disse-lhe com desdém.

A mulher voltou a rir. Ficou em silêncio, balançou o cabelo e o ajeitou atrás da orelha. Apoiou-se sob a mão e ficou fitando-lhe.

“Fingindo interesse. Que idiota.”

- Você vai ter problemas por aqui sabia? – falou a mulher.

“Estavam a demorar as ameaças.”

- Pouco me importa. – respondeu com desdém.

- Se não aprender a língua local – continuou ela – não vai conseguir emprego. Poucos aqui sabem Draconiano.

“Como tu por exemplo.”

- Por que não vais direto ao assunto? – perguntou Adalon, por fim encarando-a.

- Enfim tenho tua atenção. – respondeu-lhe a mulher, desmanchando o rosto interessado para assumir uma feição gelada, mas sincera. – Antes de qualquer coisa, me chame de Airen.

“Não é o nome que colocarias na tua sepultura.”

- Adalon Olho da Tempestade – falou com orgulho, dando ênfase a cada silaba.

- Simplesmente Adalon – perguntou-lhe ela – não terá problemas, de acordo?

Balançou a cabeça verticalmente. Tal gesto parecia ser usado de maneira concordar com os outros. Assim evitava ter de usar palavras. Bebeu um gole largo. A cerveja lhe chegou à mente rapidamente. Sentia-se eufórico e feliz. A bebida continuava ruim, mas a sensação, era fantástica.

- Há aqui pelas docas – disse Airen – um homem que lida com escravos. Tem problemas com escravos?

Sentiu a necessidade de explicar sua visão sobre Escravidão. Discorrer sobre o tratamento dos sem liberdade em Elsur, e como lhe ensinaram a lidar com isso. Logo percebeu que não era de seu feitio. Manteve a língua presa. “Que bebida magnífica. Com algo assim desnecessário torna-se a tortura.”

- Não – respondeu Adalon.

- Perfeito! – disse ela, sorrindo- Ele está contratando mercenários para escoltar uma carga. O pagamento é excelente.

- Traremos a carga então – disse Adalon, sorrindo – te protegerei nessa investida.

A mulher riu novamente. Voltou a expressar um interesse. Não conseguia Adalon, distinguir se era um interesse sincero ou não.

- Eu não participo disso – explicou Airen – não de forma direta. Apenas recruto pessoas. Não vai precisar me proteger.

“Maldita bebida!”

A mulher continuava a rir. Sentindo-se lento e zonzo. Os sentidos estavam nublados e o juízo afetado. Adalon afastou o recipiente de si. Ainda restavam alguns goles.

- A “cerveja” está ruim? – perguntou Airen, olhando para o recipiente.

“Cerveja? É o nome disso! Deveria ser Desgraça.”

- Está péssima. – respondeu Adalon.

Ela riu novamente. A risada dela parecia-lhe musica para os ouvidos. A bebida realmente o afetara, sentia algum interesse pela mulher a seu lado, por mais que recém a conhecesse. Alguma coisa estava afetando seu juízo. Concentrou-se a olhar em volta e percebeu que vários dos que bebiam a “Cerveja” encontravam-se as gargalhadas, atirando-se para cima das fêmeas presentes e fazendo longos sons, como se discursassem.

“Concentração!”

- Então – perguntou Airen – o que sabe fazer Senhor Olho da Tempestade.

Havia certa ironia nas palavras de Airen. Ela estava brincando com ele. Não deveria ter bebido. Sentia-se tentado a dar-lhe uma resposta a altura da brincadeira. Mas também se sentia tentado a abreviar a conversa antes que ela realmente descobrisse algo que pudesse lhe constranger.

-Rastrear- respondeu Adalon – perseguir, caçar, e combater com armas brancas.

- Sabes tu – disse ela – fazer uso da magia?

- Não. – mentiu ele.

- Então como sabes draconiano? – perguntou ela, tentando inutilmente esconder uma expressão de alivio.

Algo rugiu dentro de Adalon. Como se percebesse o momento para fazer algo. Seu instinto dormente acusava alguma coisa que ele não percebia. Confiava na mente como confiava no corpo, deveria ser agressivo.

- Fui treinado para matar conjuradores – respondeu ele – e identificar seus feitiços.

Sentiu então a mente aliviar. Os sentidos voltaram ao normal. Percebia tudo com a clareza habitual. A confiança diminuiu, a sensação de alegria e conforto também. Fitou a mulher e percebeu o falso interesse. Fora alvo de algum encantamento por parte dela.

“Nem a vi mover as mãos ou pronunciar algo, esta cadela vai ser um problema.

Os olhos de ambos se encontraram. Adalon moveu a mão direita para cima da mesa. Alcançou o recipiente de cerveja, e levando-o a boca, virou o restante do liquido em um gole. O capuz deslizou suavemente, mostrando um rosto jovial. Cabelos lisos e curtos, negros, repartidos ao meio caindo pouco abaixo das orelhas. O nariz era fino e proporcional ao rosto. A barba, negra e mal cuidada, cobria quase toda a extensão do queixo, das bochechas e do pescoço. As orelhas eram longas e pontudas, como as dos elfos. Os olhos é que assustaram Airen. Eram totalmente negros. Como um buraco negro, uma escuridão sem fim. Salvo pelos relampejos dourados freqüentes, que denunciavam uma raiva acumulada no interior daquele homem, os olhos dele pareciam a ultima coisa que alguém viria antes de morrer, ou a primeira depois de morto, o nada. Uma expressão permanente de arrogância e ironia estava impressa no rosto do homem, que mantinha o canto dos lábios levantado.

- Sabe – falou Adalon, num tom agressivo – essa cerveja tem um gosto familiar. Sabe do quê?

Airen forçou o arrependimento garganta abaixo. Com a mão direita Adalon esmagava a caneca de madeira, lascando-o. A mão esquerda estava abaixo da mesa. Era questão te alguns centímetros para as garras do homem alcançarem suas pernas e provavelmente rasgarem elas. Ela realmente aproveitara o efeito do álcool para manipular-lo. Só não esperava que ele compreendesse magia. Se ela gritasse, ele a rasgava. Se ela se levantasse, morria ali. Se tentasse encantar o homem novamente, corria o risco de sofrer o mesmo destino que as outras duas alternativas. Teria de negociar.

- De Vingança? – respondeu ela, mantendo a confiança.

- Exato! – confirmou Adalon, sorrindo – O gosto não parece tão ruim agora.

Com um barulho seco, o recipiente de cerveja, a caneca, foi solta sob a mesa. Ou melhor, o que sobrou da caneca. Era apenas um pedaço de madeira esmigalhado e lascado. Adalon limpava as lascas de madeira da mão direita. Airen assistia a cena com arrependimento.

A elfa que servira a cerveja aproximou-se da mesa. Interrompendo o momento de coação. Entoando algo na língua local, ela olhou para Adalon e Airen. A ruiva prontamente respondeu algo e depois olhou para Adalon.

- Deseja algo? – perguntou ela, fingindo calma – É por minha conta.

- Uma cerveja – respondeu Adalon, mantendo a ironia – e pague a outra que pedi, não tenho moedas.

Airen tornou-se a encarar a mulher e falou algo. A elfa atendente saiu da mesa, deixando os dois sozinhos. O clima hostil reacendeu.

No meio tempo em que Airen e Adalon conversavam, as pessoas começaram a abandonar a taberna. Pouco a pouco esvaziando o recinto. Apenas os mais bêbados ou os entretidos em negócios permaneciam. Os marujos, pescadores e outros plebeus retornavam a suas casas, ou iam a bordéis.

Airen e Adalon ficaram em silêncio. Salvo pelo tilintar que as garras de Adalon produziam, e a respiração ofegante da ruiva, a mesa parecia um funeral. A atendente não demorou a retornar, servindo outra caneca de madeira repleta de cerveja para Adalon, e outra com um liquido roxo escuro para Airen. Removeu a caneca quebrada e retirou-se.

- Acho que lhe devo desculpas. – sussurrou Airen, com dificuldade.

- Ahh é mesmo? – falou Adalon, sobrecarregado da ironia – Por quê?

- Não deveria ter lhe encantado. – disse ela olhando para o copo, incapaz de manter o contato visual.

- Meio tarde para desculpas – disse ele, com frieza – pelo menos durante esta vida. Quem sabe numa próxima.

Adalon alcançou, por baixo da mesa, com a mão esquerda, as pernas de Airen. Pressionando-as de leve faz a elfa segurar um ganido de dor. Ela levantou o rosto, estabelecendo contato visual finalmente, estava com medo. E raiva. Bastante medo. Bastante raiva. Mas mais medo. Um medo sincero.

- È melhor não chamar seus aliados – avisou Adalon – ou vou tornar a situação ainda mais dolorosa. Entendeste?

Airen balançou a cabeça afirmativamente. Não tinha escolha. Uma fagulha de inspiração mostrou-lhe uma saída. Apesar do homem a sua frente não aparentar brincar com o serviço. Ainda não a matara. Estava apenas a intimidando. Logo havia algum interesse por parte do mesmo em mantê-la viva. E não parecia ser por medo de encrenca. Deveria escolher as palavras certas dali por diante, ou viveria sem uma das pernas. Se vivesse.

- Escute – falou ela por fim – se me deixar explicar, talvez entenda.

- Entender o que? – disse ele rispidamente – Que tentou me manipular através de magia?

Palavras erradas. As garras afundaram de leve. Um pequeno filete de sangue começou a escorrer pela coxa de Airen.

- Sim – falou, ignorando a dor – era necessário, de outro jeito você não me ouviria.

A pressão das garras diminuiu. Acertara em cheio. Adalon era egocêntrico, se a situação girasse em torno dele, talvez fosse mais fácil resolver o problema.

- Percebi que você – continuou ela – era um guerreiro poderoso. Assim que entrou na taberna.

As garras se afastaram da coxa. Adalon demonstrava um sorriso um pouco mais agradável. Airen havia contornado a situação. Deveria proceder assim a partir de agora.

- Mas também – dizia a elfa – que não era muito comunicativo. Só pelo jeito que tratou quem teve contato.

- Difícil ser gentil – cortou Adalon – com um fanfarrão.

- Concordo! – afirmou ela – Não lhe menti em nada. Realmente trabalho para um escravagista. Realmente tem uma carga para ser escoltada. E realmente é necessário um guerreiro veterano. Como você.

Adalon riu. Tomou um gole de cerveja, manteve o sorriso no rosto e olhou para toda a taverna, quase vazia. Tornou a olhar para Airen. Colocou a mão esquerda em cima da mesa, para alivio da ruiva, tamborilando.

- Acha que sou adequado para esse tipo de serviço? – perguntou Adalon.

- Sinceramente – respondeu Airen – não, você é muito instável.

- Então por que – completou ele – quer que eu participe da empreitada.

- Não sei – disse ela, confusa – você parece instável, mas confiável.

Adalon silenciou. Bebeu de novo. Airen o acompanhou. Os dois divergiram os olhares, deixando a conversa no ar enquanto se aprofundavam em pensamentos. Até que ele por fim interrompeu o momento de reflexão.

- De quanto – disse ele – estamos falando?

- Dinheiro o suficiente – respondeu ela – para viver um ano por aqui, satisfazendo qualquer necessidade que tenha.

- Não foi clara – inquiriu ele – de quanto estamos falando?

- Não sei como lhe dizer – confessou ela.

- Suficiente para comprar uma casa? – perguntou Adalon.

- Até duas. – disse Airen, rindo.

- Negócio fechado. – terminou ele.

Airen lhe estendeu a mão direita, por cima da mesa. Sorrindo, aliviada, mas com uma ponta de constrangimento. Aquele tipo de negociação não era seu forte.

Adalon por sua vez estranhou a mão direita lhe estendida. “Costume estranho.” Pensou. Estendeu a mão também. Airen apertou-lhe a mão e balançou.

- Daqui a três dias – disse ela – o grupo parte. Vocês se encontram aqui na frente.

- Entendido – disse Adalon, tirando a mão esquerda de cima da mesa.

- O aguardarei aqui – continuou Airen – com o restante do grupo. Ao anoitecer. Entendido?

- Sim. – respondeu Adalon.

Airen fuçou um dos bolsos, retirando uma pequena sacola de moedas. Jogou a na mesa, perto de Adalon.

- Fique com isso – falou – vai garantir-lhe estadia até a partida.

- De acordo. – agradeceu Adalon, ainda segurando a mão direita de Airen.

E assim permaneceram ambos, mais alguns segundos até Airen perceber que ainda estavam segurando as mãos. Meio que delicadamente, soltou a mão de Adalon e tentou interromper o longo aperto de mãos. No instante que tentou fazer isso. Adalon lhe apertou a mão com mais força e a puxou para frente, quase a derrubando por cima da mesa. Seguido a isso, a dor invadiu o corpo de Airen, alguma coisa lhe cortara a coxa, em vários pontos. Sentiu o sangue quente escorrer pela perna. Adalon havia lhe cravado as garras.

- A próxima vez – falou ele, soltando a mão de Airen e virando a cerveja – que brincar comigo. Pensar que pode me manipular, ou achar que sabe lidar com meu ego. Eu lhe arranco a língua. Entendido?

A hostilidade repentina só não a surpreendeu mais por que Adalon continuava a lhe cortar a perna. Cortando de leve a coxa, de perto da virilha até o joelho, as garras fizeram quatro cortes paralelos, de onde o sangue vazava com vigor. Airen mordia os lábios e tentava não gritar de dor. Se alguém ouvisse era capaz da confusão aumentar.

- Pode parar – respondeu ela, num misto de raiva e dor – eu entendi.

Adalon retirou a garra. Ao mesmo tempo em que Airen cobriu o ferimento com um pedaço da toalha da mesa. O homem levantou-se, recolhendo a mochila, o embrulho, os machados e o saco que Airen lhe jogara. Sorria, jovial e ironicamente. Como quem sempre vencia.

- Três dias – falou ele, pegando a caneca de Airen e bebendo – nos vemos em três dias. Esta “cerveja” que você bebe é uma porcaria.

Jogou o copo na mesa e saiu. Pisando duro. Airen levou algum tempo na mesa. Até ter certeza de que Adalon já estivesse longe. Então pediu por ajuda. As pessoas com quem estivera sentada vieram a seu socorro.

- O que houve Airen? – perguntava-lhe uma mulher de cabelos pretos e pele suavemente bronzeada, trajando roupas de tons escuros.

- Problemas com um Mercenário. – respondeu.

Além da mulher, ali se encontravam mais três homens. Dois usavam vestes similares a da mulher. Corselete de couro escuro, rebitado. O terceiro, mais alto e largo, não usava camisa, apenas uma calça de couro. Tinha uma clava reforçada com tiras de aço, presa a cintura.

- Aonde ele foi? – perguntou um dos homens.

- Saiu agora pouco. – respondeu Airen – Esqueça ele Johlan, consiga-me uma atadura e rápido.

Antes que pudesse fazer algo. Airen percebeu que os três homens saíram porta afora. Esbravejando insultos e palavras de revolta, certamente foram caçar Adalon. Torcia ela para que não o encontrassem.

Minutos depois, a elfa atendente trazia algumas tiras de linho para Airen. Com cuidado, Airen atou o ferimento que lhe cobria toda a coxa. Daquela brincadeira com um forasteiro, sobraria uma cicatriz amarga que lhe perseguiria pelo restante de sua vida.

- Uma pergunta Airen… – disse lhe a mulher de cabelos escuros.

- Fale logo Caline! – respondeu Airen, mal humorada.

- Ao menos conseguiu contratá-lo? – falou ela, irônica.

- Felizmente sim – disse Airen, olhando para a cortina – ele será útil.

- Então vamos deixar uma marca nele também – falou Caline, massageando o ombro de Airen – não se preocupe.

- Vai ter sorte se ficar viva – alertou Airen – há alguma coisa naquele homem que me assusta.

- O tamanho? – riu a mulher.

- Não – respondeu Airen, séria – a raiva.

Capítulo 1º

http://www.ogranderpg.com.br/blog/extras/contos/o-olho-da-tempestade-capitulo-1%C2%BA-o-forasteiro/

Capítulo 3º

http://www.ogranderpg.com.br/blog/extras/contos/o-olho-da-tempestade-%E2%80%93-capitulo-3%C2%BA-pomba-maculada/

Sobre o autor:

William, alcunha Will_eu_apelo_mesmo, estudante de direito, futuro advogado do diabo, aprecia bebidas destiladas, musicas pesadas e mulheres faceis, personificando a tendência Leal e Mal. Tentando enganar a morte, ele passa horas produzindo material rpgistico, de cenários a contos, com o intuito de alimentar-se das almas dos tolos que absorvem o material. Segundo ele, a terceira melhor sensassão do mundo, é o TPK.