Olá pessoal, ai esta o terceiro capítulo de O Olho da Tempestade, boa leitura.

Capítulo 3º – Pomba Maculada

Fora uma noite movimentada para Dricca. Com a chegada da primavera e do Violador, a taberna da Garrafa Enforcada costumava ficar aberta por mais tempo. Essa não era a reclamação. Mais tempo na taberna, menos tempo no bordel. Viver em Troriad era difícil. Embora recebesse menos trabalhando na taberna, achava mais fácil tolerar os bêbados a agüentar os homens que a pagavam pelas noites. Ela até se divertia podendo dispensar os marujos que freqüentavam o local, mesmo que tivesse que aceitá-los mais tarde, ao menos receberia por isso. O assédio até lhe fazia bem para o ego.

O que era raro, mas lhe machucava, eram os insultos. Nunca fora insultada, não enquanto trabalhava na taberna. Jamais sem antes ter feito algo.

Então. Assim que o Taberneiro fechou a porta do lugar. Dispensando as demais raparigas. Ela tomou seu rumo. Pensativa.

Haviam a insultado. Um forasteiro que nem conseguia falar corretamente. Não fizera nada. Ao menos não que percebesse. Fora gentil, perguntara o que ele queria. Talvez tivesse o irritado por perguntar demais. Mas não justificava um insulto daqueles.

Por alguns instantes parou e olhou para seu reflexo. Não aparentava estar velha. E nem o era. Não fazia muito que passara o século e meio de idade. Olhou para o decote. Se usasse mais curto, certamente os guardas a prenderiam. Não tinha duvidas ela de que isso muito agradaria a milícia.

“Não pareço nenhum pouco velha. O forasteiro tava desdenhando o que nunca compraria.”

O pensamento lhe elevou a auto-estima. Acariciou o próprio rosto frente ao espelho. Era realmente bela. Depois de um banho certamente estaria deslumbrante. Apressou o passo. O horário não era propicio para o narcisismo. Era noite avançada. Costumava voltar para casa logo depois do entardecer. E não antes do meio da noite. Todo tipo de sujeito de má índole costumava começar a “trabalhar” durante aquelas horas.

Divertiu-se imaginando uma cena, em que dispensava o forasteiro. Não importando o dinheiro que ele lhe oferecesse. Percebeu então que por algum motivo, aquele homem não lhe saia da cabeça. Seja pelo insulto, ou pela presença do mesmo. Algo nele a agradava, tinha que admitir.

Atravessou por fim uma pequena travessa. Cortou uma quadra por um beco, e saiu numa rua pavimentada. Mais meia dúzia de quadras e estaria em seus aposentos. Não era algo luxuoso, ela lembrava, mas era dela. O único lugar aonde ela sentia-se em paz, consigo mesma e com o mundo.

Por fim escutou passos. Como de praxe não olhou para trás. Não podia demonstrar medo. Era normal seguirem-na por algumas quadras, e depois se perderem nos infinitos becos das docas. Provavelmente algum marujo da taberna tentando se dar bem.

Os passos continuaram.

Mais próximos.

Mais altos.

E eram muitos.

A curiosidade venceu, ou o medo. Olhou para trás, por fim.

E arrependeu-se.

Eram vários, no mínimo seis homens. De vestes escuras e feições maliciosas. Alguns com adagas na mão, outros com porretes. Assustou-lhe mais o fato de um deles carregar uma besta.

Olhou para os lados. Nem sinal da milícia. Eles não vinham muito ali. Não com freqüência.

Torceu para que não estivessem a seguindo.

Mudou a rota. Entrou num beco, fez meia volta, e voltou à rua principal que estava antes.

Continuavam atrás dela.

Apertou o passo. Eles começaram a correr.

Atalhou por um beco.

Deparou-se com um sujeito alto. De vestes negras. Sentado no chão. Abraçado a um embrulho de tecido pardo, tão comprido quanto si próprio. Parecia estar dormindo.

“O forasteiro!”

Ela lembrou-se da bagunça que ele fez na taberna. Ergueu um homem com uma mão. Praticamente rasgou as pernas de Airen, e conseguiu intimidar aquela elfa, que definitivamente era mais durona que muitos mercenários veteranos. Ele poderia salvá-la daqueles homens.

“Só preciso acordá-lo!”

Aproximou-se do mesmo. Parecia estar mesmo dormindo. Colocou a mão no ombro do forasteiro e suspirou. Então, mudou de idéia.

“Jamais! Depois do que ele me disse!”

Passou por ele. No instante seguinte, seus perseguidores entraram no beco. Apressou o passo. Saindo do beco, pegou a direita e começou a correr em direção a sua casa. Faltava apenas meia quadra.

“Quase lá!”

Ofegante, olhou para trás. Com alegria percebeu que não havia mais ninguém atrás dela. Havia os despistado. Ou isso ou…

Um grito de dor ecoou de algum lugar do beco que saira.

Segunda hipótese, ou atacaram o forasteiro. Se estavam perseguindo uma meretriz, seja lá o que fossem fazer com ela, certamente atacariam um homem dormindo num beco.

“Bem feito, ele merece! Grosso!”

Por fim chegou a casa. Puxou o molho de chaves. Destravou a primeira tranca.

“Vou tomar um banho, me arrumar, comer alguma coisa e ir trabalhar de novo…”

Sorria para si mesma, no trabalho estaria segura.

Outro grito.

“… talvez em um mês eu consiga dinheiro para mudar-me daqui.”

Um terceiro grito.

Ficou nervosa. Dava para ouvir os berros de dor dali. Talvez o forasteiro merecesse uma lição. Mas não uma surra daquelas.

Quarto grito.

Guardou a chave, começou a correr em direção ao beco. A vida era difícil, complicada. As pessoas eram cruéis e insensíveis. Ela não. Nunca recebera ajuda de ninguém, dependia do próprio corpo pra sobreviver. Mas era uma boa pessoa. Não queria ver ninguém mal ou triste. Entre as mulheres que trabalhavam nas casas, era a mais desejada. Não só pela beleza. Mas pelo carinho.

Chegou ao beco.

Por mais cruel que alguém pudesse ser com ela. Dricca jamais conseguia odiar alguém, não por muito tempo. Suportara demais na vida, o suficiente para jamais voltar a sorrir. Decidira que não tinha tempo pra viver lamentando ou odiando alguém. Seria feliz.

A cena era desagradável. O embrulho, ainda fechado, jazia largado no meio do beco. Os homens que a seguiram estavam ao redor de onde ela tivera visto o Forasteiro. Encontravam-se tão apinhados, que demorou para ela perceber que estavam a chutar alguém.

Quinto grito.

“Tenho que fazer algo! Irão matá-lo.”

Sexto grito, mais fraco, quase inaudível.

-Hei! – gritou ela, em plenos pulmões – Deixem-no em paz.

Os chutes pararam. Ela era o centro das atenções agora. Seis olhares malignos estavam direcionados para si.

- Vem cá – falou um deles, andando na direção dela – não vamos te machucar.

Os outros cinco riram.

Quando se deu por conta, um deles a ameaçava com a besta. Os outros caminhavam na direção dela.

Engoliu em seco. Fizera besteira.

- Eu tenho apenas algumas moedas vermelhas – disse ela – são suas!

Removeu uma pequena sacola de pano do meio do decote e jogou no chão, perto daqueles homens. Era o que tivera recebido pelo dia de trabalho na taberna.

Um a um eles passaram pela sacola. O ultimo lembrou-se de pisar em cima. Eles não queriam o dinheiro. Apenas o homem armado com a besta permanecia parado, do lado do Forasteiro.

- Queremos outra coisa – avisou um dos homens, a malicia encarnava-se em sua voz – e não vamos pagar por ela! Vadia!

Sabia do que falavam. Homens como eles, bandoleiros e assaltantes, raramente tinham dinheiro, ou mulheres. Estupros eram comuns a qualquer mulher desacompanhada, e mesmo a algumas acompanhadas, que estivessem depois do anoitecer nas ruas das docas. Não ia adiantar em nada gritar, ninguém a ajudaria. Lembrou-se de uma mulher que fora estuprada numa rua próxima. Por causa dos gritos, cortaram-lhe a garganta e a língua. Os humanos eram cruéis.

Um grito de surpresa e seguido pelo barulho de uma besta disparando. Os homens pararam. O virote passou perto da cabeça de um deles. Perto o suficiente para os cinco voltarem-se para trás furiosos.

- Cuidado com essa besta Scod! – reclamou um deles – Quase me…

Não pode terminar a frase. A culpa realmente não fora de Scod. Qualquer um de cabeça pra baixo teria problemas de pontaria.

Scod estava entre os “quaisquer um” que não atirariam bem de cabeça pra baixo. Ainda menos quando suspensos no ar por um homem que deveria estar desmaiado.

Nem percebera o homem acordar, quanto menos o momento que ele lhe agarrou o calcanhar. O susto o fez apertar o gatilho, quase acertando a cabeça de Ted. Então o mundo virou de ponta cabeça. Tentava inutilmente se soltar. Sem sucesso. Estava a quase um metro do chão. O homem era alto. Muito alto.

- Ora ora – exclamou Ted, surpreso – tenho de admitir tens colhões homem!

Em resposta a Ted, apenas um ganido de dor. Até Dricca, paralizada pela cena, do lado de fora do beco, conseguiu escutar o barulho seco de ossos quebrando.

- MEU PÉ! – berrou Scod – FILHO D’UMA ÉGUA!

Os cinco pararam. O pé Scod, lugar pelo qual aquele homem alto e sombrio segurava o rapaz, fora claramente esmagado. Com um apertão. Como quem esmaga uma noz.

- Chega! – ordenou Ted – Agora o solte ou apanhará mais.

Dricca lembrou-se. O forasteiro esmagara uma caneca de madeira facilmente. Rasgara a pena de Airen sem problemas. Era grosseiro, mas forte. Em algum lugar de si, ela torcia para ele se dar bem. Parte de si queria correr para casa, a outra parte, porém, queria ficar ali, por algum motivo.

“Vai que ele precise de minha ajuda!”

Não sabia o que faria caso isso acontecesse. Mas não podia deixá-lo sozinho.

Em resposta a ordem de Ted, o Forasteiro tirou a mão esquerda de debaixo do manto. Levantou a até a altura da coxa de Scod.

Um estralo metálico marcou o momento em que pontas azul-cristalinas, surgiram na ponta dos dedos da mão esquerda, coberta por uma manopla, formando garras de um palmo de cumprimento.

- Hei Hei! – falou Ted – Devagar com isso ai rapaz. Ninguém aqui precisa se machucar.

O forasteiro afastou os dedos uns dos outros. Eriçando as garras. Moveu o braço esquerdo para trás, tomando distância. Iria golpear Scod na coxa.

- Larguem as armas! Larguem as armas! – alertou Ted, abaixando-se e colocando o porrete no chão – A gente se rende!

Os outros quatro seguiram o exemplo de Ted. Colocando as armas no chão e erguendo os braços. Estavam assustados por alguma coisa.

“Covardes!” Pensou Dricca, sentia-se feliz, no entanto. Não se sabia era pelo fato dos homens estarem se rendendo, ou pelo fato do Forasteiro ter protegido-a.

“Ele podia ter saído correndo. Resolveu me proteger. Ao menos isso!”

E sorriu.

Um segundo grito de dor vindo do homem de cabeça pra baixo anunciou o inicio de um massacre.

O forasteiro moveu o braço esquerdo. Nenhum som antecedeu ao ultimo grito de dor de Scod, antes de desmaiar. Apenas um movimento rápido e Scod estava no chão. Sua perna esquerda, todavia encontrava-se na mão do forasteiro. Fora um corte limpo.

Por instantes, ninguém se moveu. Não ousaram nem respirar. A mão esquerda do homem passou cortando a coxa de Scod como faca quente em manteiga. O sangue jorrava em quantidades surpreendentes da perna amputada, ainda nas mãos do homem, e do corpo de Scod. Ele não sobreviveria a um golpe desses. Na verdade poucos sobreviveriam a uma mutilação com tamanha frieza.

O homem por fim soltou a perna. E correu na direção dos outros cinco. O sangue de Scod pintara a mão esquerda do mesmo de vermelho, e em breve, o sangue dos demais se uniria aquele mosaico rubro negro.

Dois tentaram correr, acabaram tropeçando e caindo perto de Dricca. Ted agarrou o porrete e puxou um de seus companheiros, colocando o mesmo entre si e o homem que mutilara Scod. A vida do amigo lhe garantiu mais alguns miseráveis segundos de sofrimento.

Ao ver que um deles tentava fugir. Pulando por cima dos outros dois que estavam caídos a sua frente. Dricca gentilmente deixou um pé no meio do caminho, fazendo-o tropeçar e juntar-se aos outros dois colegas, no chão.

Seu lado cruel raramente se manifestava, e durava pouco tempo. Ela se extasiava com o terror que aqueles bandoleiros estavam sentindo. Sabia ela que mereciam. Sabia ela que eles já tinham assaltado, matado e estuprado diversas vezes. Sabia ela que a guarda nunca os pegaria. Sabia ela que nenhum nobre ou rico pagaria um mercenário para expulsar-los. Sabia ela que eles provavelmente eram protegidos por uma sociedade, com a qual compartilhavam parte de seus lucros. Sabia ela que sentiria remorso por aquilo depois. Mas não se importava.

Eles merecem!”

Ted viu o homem parar logo a frente de seu amigo. E escutou uma gargalhada debochada. Nada viu. Apenas percebeu que seu companheiro, que usara de escudo, não esboçava reação nenhuma.

Os demais continuavam no chão. Ted estava congelado. O homem abaixou-se, aproximando seu rosto do rosto do escudo de Ted. Com uma cara debochada, levantou o dedo indicador, e encostou a ponta da garra na cabeça do homem. Que parecia uma estatua.

Bastou uma leve pressão do dedo do homem, para que Ted percebesse um filete de sangue escorrer do pescoço de seu amigo. Petrificado pelo medo ele presenciou a cabeça descolar e ser empurrada na direção que o homem empurrava com o dedo. Seu amigo fora degolado. E ele nem vira o golpe.

Acompanhou a cabeça cair na lama do beco. Um barulho nojento marcou o fim da queda. O rosto do degolado ainda estava com a mesma expressão, a surpresa. Quando voltou se a frente, soltando o corpo. Percebeu o rosto do seu inimigo a menos de cinco centímetros do seu. Uma expressão sarcástica e arrogante, combinada com os olhos completamente negros do homem, fez Ted se esforçar para controlar a bexiga.

- Buuuuu! – sussurrou o homem, aproximando se do rosto de Ted.

O controle da bexiga foi esquecido. Um liquido amarelado e morno escorreu pelas pernas de Ted, incapaz de esboçar qualquer reação. Não conseguia reagir, nem pensar, estava morto.

Por fim caiu de joelhos, e juntando as mãos, implorou:

- Por favor! Não me mate! – chorava ele – Leve todo nosso dinheiro mas não me mate!

Sentiu uma força segurar-lhe os cabelos, levantando-o do chão. Estava em pé de novo, o homem o segurava e lhe analisava o rosto. Parecia curioso.

A atenção dele então foi desviada. Olhou para algo atrás de Ted.

Ted acompanhou o homem. Ele olhava para os homens que, estando antes ao chão, agora se levantavam e esboçavam intento de correr por suas vidas.

E foi a ultima coisa que viu.

No instante seguinte o homem lhe puxara o rosto na direção dele. E então a dor lhe invadiu o rosto, como se algo lhe retalhasse a cara. Começando da testa e terminando no queixo. Sua visão tornou-se negra. Mas não estava morto. Ainda. Sofreria mais.

Dricca afastou-se. A violência era tanta que mesmo com raiva, ela não conseguia olhar diretamente para o lugar. Fechara os olhos quando vira que o Forasteiro havia degolado um dos homens. Abrira os olhos olhando para o chão, escutando os gritos de dor do lugar.

Ted, agora cego, teve a sorte de não presenciar a crueldade excessiva cometida no lugar. Dricca por sua vez não teve a mesma sorte. Ela viu o forasteiro derrubar novamente os três homens no chão, esmagar-lhes ambas as pernas aos pisões, aputar-lhes os dois braços com as garras e então, os largar no chão, a morrer em agonia.

Faltava apenas Ted. Dricca sabia que esse sofreria mais. Por algum motivo o Forasteiro não gostara da atitude daquele homem, agora cego, em usar um companheiro como escudo. Seu estomago rugiu, a carne que comera na taberna tentava voltar pela garganta. Era sangue demais, amputações demais, violência demais. O Forasteiro não era apenas grosseiro, era cruel, mas havia a protegido.

Um barulho desviou-lhe os pensamentos. Ela conhecia aquele som, e normalmente sentia-se feliz ao ouvi-lo. Não era esse o caso.

O barulho de botas de ferro ecoando num ritmo seqüenciado anunciavam a chegada da milícia. O som lhe clareou as idéias. Se fossem vistos ali, ela e o forasteiro. Ambos seriam presos. Ele provavelmente seria enforcado. Não importava se aqueles homens ali mutilados e as portas da morte eram bandidos ou não. Ninguém podia matar ninguém dentro dos muros de Troriad, sob pena de ser enforcado. Tinham que sair dali. A milícia já andava na direção do beco, subindo a rua. Provavelmente atraída pelos gritos de dor. Que tardiamente começavam a desvanecer no ar.

Dricca correu para dentro do beco, levantando a saia até as canelas. Saltou por cima de dois corpos. Alcançou o forasteiro enquanto o mesmo se deleitava em arrancar um a um os dedos de Ted. E puxou lhe a mão esquerda, tentando ignorar a manopla banhada em sangue.

- A milícia! – disse ela, em desespero – Temos que sair daqui.

Adalon não entendeu. Não entendia aquela língua. Mas agora que sua atenção fora desviada da matança, conseguiu ouvir com clareza. Botas Metálicas. Grevas. Seis pessoas. Barulho de Cotas de Malha. Passos Ritmados. Marcha. Provavelmente as forças da lei do local.

“A Guarda! Talvez seja isso que ela queira me avisar”

Balançou a cabeça, como aprendera a fazer para concordar com as pessoas dali. A elfa da taberna passou para o outro lado e começou a puxar-lo. Rapidamente desvencilhou-se dela, para pegar o embrulho no chão e deixar um ultimo recado a aquele homem mesquinho que usara um companheiro de grupo como escudo.

Deitou o homem no chão. Abriu-lhe as pernas usando o pé. Levantou a perna direita até a altura da cintura, e desceu com força na região da virilha do homem. O grito de dor só não foi ouvido, por que a instantes antes, Adalon havia mutilado a língua e parte do pescoço do homem, junto com os oito dedos das mãos. Aquele homem viveria, sim. Miseravelmente.

A mulher puxou-o de novo. Segurando-lhe a mão direita, a mesma o guiou para fora do beco, contornaram uma quadra, saíram em outra rua. Pararam então.

- Esconda essa garra! – disse ela, apontando para mão esquerda de Adalon.

Novamente aquela língua confusa e desgraçada. Não entendera nada de novo. Apenas viu que a mulher apontara pra mão esquerda.

“Que tem minha mão?”

- Droga! – reclamou Dricca – Esconda essa garra homem!

“Não adianta gritar, não vou te entender. Que tem minha mão.”

Talvez ele não entendesse sua língua. Pensou Dricca. Não tinha tempo para tentar falar alguma outra linguagem. Apontou para a mão esquerda do forasteiro e então colocou sua própria mão esquerda atrás de si.

Entendi.”

Não demorou mais que alguns segundos para Adalon soltar as fivelas da manopla, removê-la da mão esquerda e colocar-la na mochila que carregava.

Dricca sorriu. Talvez não fosse tão difícil assim. Tornou a puxar o forasteiro. Atravessou outro beco, e voltou para a rua de sua casa. Apenas uma quadra acima e a duas do beco aonde presenciara o massacre.

Era possível ver a milícia dali. Estavam no beco.

Apressou-se na direção de sua casa. Soltou a mão do forasteiro, puxou o molho de chaves, destrancou as duas ultimas travas, abriu a porta, empurrou o homem para dentro e entrou. Não sem antes dar uma ultima olhada para a rua. A guarda não os vira.

Ufa! Que noite!”

Tateou pelo escuro, procurando a lamparina. A encontrando do lado da porta, girou a pederneira, iluminando o lugar. Enfim em casa.

Parado a sua frente, com uma expressão de surpresa e inocência, estava o Forasteiro, o mesmo que a insultara na taberna, mas o mesmo que a protegera dos assaltantes. Pode ver que ele era jovem. Parecia inocente, não lembrava em nada o monstro que mutilara e matara seis homens há alguns minutos atrás, com requintes de crueldade.

- Sente-se! – disse ela, apontando para as cadeiras próximas a uma mesa.

Adalon entendeu. Anotou mentalmente, Sentar significava naquela língua o ato de usar uma cadeira. Dirigiu-se até a mesa, puxou uma cadeira e sentou-se. Soltou suas coisas no chão e prestou atenção no ambiente.

Como a maioria das casas que vira naquele lugar, a casa era feita de madeira sustentada por pequenos muros de pedra. A casa que a atendente o levara ficava varias quadras acima da taberna aonde a vira pela primeira vez, em meio a outras tantas casas de igual tamanho e formato. Todas cercadas por muros baixos e com pequenos jardins.

O lado interno era extremamente confortável. As paredes eram cobertas com quadros e desenhos, das mais diversas paisagens, em geral florestas e praias. As janelas, sempre fechadas, eram ladeadas por cortinas. Os móveis refletiam conforto e espaço, e eram poucos. A casa tinha apenas três cômodos. O maior servia como sala, possuía uma mesa com três cadeiras, uma lareira de pedras, dois armários com livros e papéis diversos, duas cadeiras de balanço estofadas. O outro cômodo era diretamente em frente a sala. Adalon não conseguia ver nada de lá, apenas sentia o cheiro de algo agradável. O terceiro cômodo por fim, estava fora do alcance dos sentidos dele.

Dricca por sua vez, atirada numa cadeira de balanço, prestava atenção no forasteiro, que olhava para a casa com curiosidade.

Um dos olhos estava roxo. Ferimentos nos lábios. Um corte no pescoço.

“Impossível ver algo por baixo dessa barba e roupa todas.”

O remorso atingiu-a por fim. Seis homens morreram, por sua causa. Talvez um deles não morresse, mas viveria tão miseravelmente que a morte seria uma benção.

Se eu não tivesse voltado lá! Ninguém tinha morrido.”

A elfa segurou o riso quando viu seu convidado, com uma curiosidade praticamente infantil, olhar os entalhes das cadeiras e cheirá-los.

“Ele parece uma criança.”

Ela tinha certeza que não o era. A imagem dos homens mutilados no beco estava bem nítida em sua memória. Exagero e excesso. Não era necessário amputar pernas, quebrar braços e degolar pescoços, alguns cortes ou murros e eles correriam. Mas não, foram transformados em picado de carne.

“Que monstro…”

Sentiu medo. E se ele quisesse matá-la e roubar suas coisas? Ele o faria e ninguém perceberia. E se ele quisesse fazer com ela o que os outros fariam?

“Péssima idéia trazê-lo aqui. Devo chamar a guarda!”

Se a guarda viesse. Ele não teria como se explicar. Ele aparentava não saber falar nem entender a língua de Troriad. Ele iria parar na masmorra, ficaria lá algumas noites ou talvez fosse enforcado.

“Ele nunca mais me acharia. Talvez fosse enforcado! Matar alguém em Troriad sempre da forca!”

Não agüentando, deu uma risada baixa. O forasteiro estava olhando embaixo da mesa. Dando pancadas leves na madeira.

“E se ele matasse os guardas? Ele poderia muito bem fazer isso. Mais gente morreria. Não, ele atacaria os guardas assim que eles se aproximassem. Não parecia ser burro, apenas abobado.”

O forasteiro por fim saiu do transe de curiosidade sobre mesas e cadeiras. Com a mão direita num dos bolsos do manto, pegou uma pequena sacola de pano, suja de barro. O balançar da sacola veio junto com um tilintar metálico.

- Hey! – alertou Adalon, arremessando a sacola de pano na direção de Dricca.

A atendente pegou a sacola em pleno ar. Logo a reconhecendo. Era o pagamento da taberna. Ela tinha deixado no beco. Respirou aliviada, olhando para o forasteiro com outros olhos.

“Talvez ele não seja um monstro. Deve ter sido o momento.”

- Obrigada! – disse ela, sem perceber o descuido.

Adalon a encarou por alguns segundos. Analisando o ultimo som que ela emitira, parecia uma palavra só. E como se lesse as expressões no rosto da elfa, adivinhou que a mesma estava de alguma forma o agradecendo.

“Devo manter a situação.”

- Obrigada. – afirmou ele em retorno.

Dricca riu. Ele estava agradecendo. Realmente não era burro e parecia ler bem as pessoas, aprenderia rápido. E seria engraçado. Errando os gêneros e o tempo, ele parecia ao menos não se importar com os erros.

Adalon, incomodado com os ferimentos, levantou-se por fim. Removeu o manto e o estendeu por cima da mesa. Em seguida removendo o peitoral, e as ombreiras, e depositando sob a mesa. O peito e os braços do forasteiro, repletos de tatuagens alienígenas e sombrias, estavam marcados com pequenas gotas de sangue que insistiam em sair de esfolões e cortes. A maioria nos braços, alguns no rosto, poucos no peito.

“Uma noite de pouso, quem sabe mais de uma, pagam os cortes.” Pensou ele, enquanto presenciava Dricca sair da sala e ir para a cozinha, não sem antes fazer um gesto com as mãos, como se pedisse para que ele esperasse.

“Não pretendo sair daqui mesmo. Mas aproveitando, cadê aqueles machados!” Procurou rapidamente as machadinhas de arremesso. Estavam embaixo do banco. Pegou uma delas, segurou na lamina, pela parte sem fio, e bateu com força contra a mesa.

“Vou levar essa mesa.” Decidiu, ao perceber que a madeira da mesa sequer lascara, enquanto o cabo do machado quase quebrou. Ao escutar o barulho de passos vindo da cozinha, soltou o machado no chão.

Escutando um estouro vindo da sala, e temendo pelo pior, Dricca saiu da cozinha as pressas. Carregando uma bandeja com um pão, um pedaço de carne seca e leite, e com a graça habitual, entrou na sala procurando a origem do ruído, torcendo para não ser nada grave. Deparou-se apenas com o forasteiro a lhe olhar e balançar as mãos. Estava tudo inteiro. Salvo por um dos machados que o Forasteiro carregava que estava no chão, lascado.

“Ufa! Não quebrou nada, deve ter sido o machado caindo.”

- Sente-se! – falou ela, arrumando um espaço na mesa desocupado para despejar a bandeja.

Entendendo o que foi dito, Adalon interrompeu as bandagens nos braços e sentou-se próximo a bandeja.

“Hmm parece que é de comer. Não creio que ela me envenenaria.”

- Coma! – disse ela, fazendo um gesto, indicando um dos pães e pegando um para si.

“Ela ta achando que eu sou um cachorro? Que audácia!” Resignou-se, porém, a comer o que lhe foi servido. Aos poucos estava se habituando a linguagem local, mesmo que a custo de seu ego.

“Sacrifícios devem ser feitos!” Convenceu-se. Sentiu um toque estranho nas costas. Como não percebera ninguém entrar na sala. Então não havia mais ninguém ali além dos dois. Devia ser a elfa.

Arg! Isso dói! Tira a mão daí!” A dor nas costas lhe incomodou. A elfa havia, ao tocar suas costas, aberto novamente um corte feito por adaga, lembranças de uma viagem de dois meses. Inclinou para frente e tentou escapar da curiosidade da mesma.

O toque dela o alcançou de novo. Dessa vez com mais cuidado. Finalmente percebeu ele que estavam a lhe fazer curativos. Levou alguns minutos enquanto ele comia, até que ela terminasse as ataduras. Estava melhor.

Ao levantar os olhos, e abocanhar o ultimo pedaço de queijo. Adalon viu que a mulher estava a sua frente, sentada numa cadeira do lado oposto da mesa. Encarando-lhe.

- Dricca – disse ela, apontando para si mesma – Lunedricca Galdarine!

Apontou, após se apresentar, para Adalon.

”Dricca? Que alcunha! Ao menos foi sincera.”


- Adalon – falou ele, entoando pomposamente cada silaba – Olho da Tempestade.

- Encantada em conhecê-lo Adalon – disse ela, fazendo uma reverência.

Adalon encarou-a em silêncio. Como se tivesse percebido alguma coisa. Já ouvira alguns sons parecidos antes. Ela repetira alguns, mas mudara a parte final. Uma sonorização final diferente. Não era sotaque. Forçou a memória.

“Os que usavam o som findo em ‘O’ eram tecnicamente machos. Ela tem usado apenas ‘A’, deve ser para fêmeas.”

Continuou em silêncio. Enquanto Dricca o olhava, esperando uma resposta.

“Jamais! Espécies tão primitivas jamais fariam uso de palavras diferenciadas de acordo com o sexo. Seria demais para eles.”

- Encantada em conhecê-lo Dricca – disse ele, convicto, voltando a comer.

Ela riu. E com vontade. Ele não entendeu, mas não deu bola. Ela levantou-se da mesa e saiu da sala, não sem antes gesticular para que ele esperasse. Ele continuou comendo.

O tempo começou a passar. Dos pratos, Adalon passou a lustrar o peitoral. Do peitoral, passou a limpar a manopla, para em seguida cozer a barra do manto, e depois limpar as botas, limar a ferrugem das grevas e do cinturão, cortar fora a barra rasgada da saia. Não ouvira nada. Passara-se uma quantidade considerável de tempo. O meio da noite estava chegando.

Por fim ouviu passos. Ela estava vindo. Já a reconhecia pelo barulho das passadas, e pela respiração leve. Permaneceu sentado. Surpreendeu-se.

No decorrer de seus dois séculos e meio de vida, nunca vira beleza tão formidável. Sem os trajes sujos e apagados da taberna. Sem a aparência surrada e sofrida que carregava no rosto. Com o cabelo negro livre do coque. Dricca era outra pessoa.

Usava um vestido preto, de suspensório vermelho e uma blusa branca, com uma abertura no peito sensivelmente maior que a do vestido que usava na taberna. Um cheiro agradável partia do corpo da elfa. Parecia delicada, mas ao mesmo tempo dominadora. Dava impressão de ser uma mulher doce, e ao mesmo tempo vulgar.

Não escondeu a surpresa. Primeiro arregalou ambos os olhos. Depois levantou apenas uma das sobrancelhas e esboçou um meio sorriso.

“Maldição, ela é linda!”

Ela divertia-se com a cena. Ao menos sua aparência foi capaz de surpreender aquele homem. Deliciou-se com os pensamentos que ele poderia estar tendo. Lembrou-se do insulto. Vingar-se-ia.

“Mas isso tudo por quê?” Pensou Adalon, confuso, ela certamente não se arrumara para ele, embora ele tinha uma certeza de que isso fora para provocá-lo, de alguma maneira.”È o meio da noite. Se fosse para mim teria sido menos roupas. O que diabos é…”

Teve então um momento de clareza. Lembrou-se dos dois longos meses a bordo do Violador. Acreditava ele que aprendera ao menos a metade da cultura dos humanos, e dos elfos que viviam fora das fronteiras de Elsur. Vira homens roubando de outros “Ladrões”. Vira homens matando outros “Assassinos”. Vira homens forçando mulheres, crianças e às vezes outros homens “Estupradores”. Sabia que poderia atacar qualquer um desses sem piedade, dentro ou fora de Elsur, ninguém gostava de quem não respeitava o outro. Vira também mulheres, e alguns homens, que se deitavam com outras pessoas em troca de dinheiro, comida, água “Meretrizes” ou “Putas”.

Hey! – falou por fim, enquanto assistia Dricca dirigir-se até a porta.

A elfa parou com o susto, manteve a postura e olhou para Adalon, aguardando o forasteiro.

- Mercenário – disse ele, apontando para si mesmo.

Dricca suou frio. Quando viu a mão do forasteiro apontada na direção dela. “Amor do Patriarca! Ele quer saber o que eu faço.” Ficou confusa por algum tempo, por algum motivo tinha receio de admitir algo que defendia com orgulho. Admitiu para si que em poucas horas aquele gigante havia mexido com ela.

Tentou futilmente balbuciar algo, não conseguindo formar nenhuma resposta, não sem antes ser cortada por Adalon.

- Meretriz? – perguntou ele, mantendo o dedo apontado.

Viu-se criança novamente, como que ouvindo alguma repreensão por ter feito algo errado. Sentiu as bochechas corarem. Não respondeu, apenas balançou a cabeça afirmativamente.

Sem falar nada, dirigiu-se até a porta e fez um gesto para que Adalon saísse. Aguardou pacientemente até o forasteiro ajustar a armadura e pegar suas cosias. Percebeu que ele estava sorrindo, e que havia malicia naquele sorriso.

“Grosso!” Pensou.

Ele saiu por fim. Ela fechou a casa e começou a caminhar, gesticulando para que ele a seguisse.

“Puta! Mas que sorte!” Sorriu para si. Não tinha para aonde ir. Tivera sorte de ter achado aquela atendente novamente.

Sem saber falar a língua local. Não sabia aonde dormir. Nem sabia o que fazer com o dinheiro que lhe foi dado. Inclusive tentara dormir em algumas casas próximas a taberna. Gesticulando e oferecendo aqueles discos metálicos estranhos que chamavam de dinheiro. Fora expulso de todos os lugares. Aos gritos. Tivera que fugir da guarda. E quando resolveu dormir no beco, deu sorte grande.

Viu que ela estava fugindo. Manteve-se quieto. Percebeu que ela quisera sua ajuda. Viu-a se aproximar. Como estava desarmada, permitiu. Logo ela mudou de idéia, saltou por cima dele e fugiu. Ela estava braba com ele. Ele sabia. Só não sabia o real motivo.

Percebeu os seis homens que a seguiam. Formulou um plano e pôs em ação. Eles passaram perto dele. Alguns até o cumprimentaram balançando a cabeça. Todos evitaram chegar perto. Quando o ultimo passou, Adalon chutou-o e voltou a fingir que estava dormindo. Eles começaram a discutir entre – si perguntando-se quem fora o engraçadinho. Não agüentando, Adalon riu. Eles vieram, e como o planejado, começaram a tentar lhe agredir. Gritou de dor algumas vezes para ter certeza que ela vinha. E foi certeiro! Não deu alguns minutos ela estava na entrada do beco, berrando.

Dera tudo certo. Matara os homens, impressionara a mulher. Agora precisava manter o interesse da mesma. Torcia para que ela não o levasse para dormir noutro lugar. Confiava nela, sem saber que confiava, sentia-se a vontade. Teria de fazê-la permitir que dormisse naquela casa. Ao menos já recebera comida.

“Se nada der certo. Ainda tenho o dinheiro.”

Dricca, que ia à frente, logo se surpreendeu com Adalon a alcançando, a largas passadas. O forasteiro tinha ficado para trás em um momento antes, pensativo. Ela chegou a achar que ele tomaria outro rumo. Não pode esconder a alegria ao perceber que ele continuava ali do lado. Sentia-se segura.

Capítulo 1º

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Capítulo 2º

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Sobre o autor:

William, alcunha Will_eu_apelo_mesmo, estudante de direito, futuro advogado do diabo, aprecia bebidas destiladas, musicas pesadas e mulheres faceis, personificando a tendência Leal e Mal. Tentando enganar a morte, ele passa horas produzindo material rpgistico, de cenários a contos, com o intuito de alimentar-se das almas dos tolos que absorvem o material. Segundo ele, a terceira melhor sensassão do mundo, é o TPK.