Olá galera. Apesar da semana de atraso, ai esta a continuação do nosso ótimo conto que é o Steampampa.

Capítulo 4 – Chuta que é Macumba!

Ia eu, taura solitário caminhando com a mala cheia. Já iam varias horas de caminhada e o sol tava tímido naquela tarde. Eu tropeçava nos meus pés e percebia como um olho fazia falta.

Durante a tarde, fui me lembrando de como era boa a vida antes daquilo tudo. Viver na estância com a Filomena, passear por Porto Alegre com o Guilhermino, comprar cocada pro piá na redenção aos domingos. Ele dizia que ia ser astronauta,abanar pra gente la de cima. Que ia ser presidente da republica, acabar com a pobreza e fazer todo mundo feliz. Dizia um tanto de coisa, tinha um tanto de sonho. Pobrezinho. Mesmo o mais bagual dos baguais, choraria lembrando daquilo. Eu enterrei tão fundo a minha dor e a minha tristeza, sepultei com carcaça de Ispiuberg e fiz um epitáfio com um pedaço de ferro esfumaçado, que agora que eu olhava para traz, eu sentia toda a dor de uma vez só. A dor dos sonhos que meu gurizinho não ia conquistar. A dor da minha chinoca que eu não ia mais ver, não ia mais beijar. De repente me bateu aquela saudade, aquele aperto no peito e aquela coisa ruim que faz o taura se ajoelhar e chorar. Primeiro quis que eles não tivessem morrido, que tivessem comigo ali. Depois eu percebi quanto eles iam estar sofrendo, e ate fiquei aliviado por eles estarem no céu agora. Enxuguei as lagrimas e me levantei devagarito.  Parecia que tinha um enxame de abelha dentro da minha barriga. Caminhei e direção ao sol poente.

Quando me ajuntei com a peãozada, eles se apavoraram com meu olho. Larguei a mala de garupa e mandei todo mundo sair da minha volta que eu tava com os córno virado. Eles entenderam e me deixaram quieto. Fui-me indo na direção dum arroio ali perto, tomei um banho rápido e gelado, quando me vesti não tive vontade de voltar ao acampamento, decidi caminhar um pouco.

Segui meio cansado, meio ajorjado, quando olho pra perto de uma encruzilhada e vejo seis carcaça de Ispiuberg, o mais estranho é que tinha um preto sentado no meio deles. Peguei o meu facão novo e fiquei espiado, me aproximando na maciota.

-O bagual! Que diabo aconteceu aqui?!

O neguinho usava um terno todo branco com um chapéu, parecia um sabista. Tinha uma navalha na mão, uma garrafa de Belinha na outra e um sorriso bem branco na cara.

-Então misifí chegou. Venha Miguel, não tem porque te medo. Eu posso lhe dar paz, se misifí assim quiser. – a voz dele era suave e meio aviadada, e ele olhava pra baixo o tempo inteiro. – ou, se misifí preferir… posso dar a vingaça a misifí…

-Pra começar, bagual que não me olha nos olhos eu não confio.

-Se eu lhe olhar nos olhos, você vai ficar louco, meu jovem guasca.

-Me olha de frente antes que eu perca minhas estribeiras, desgraça! Se tu não fores, vesgo, não tenho problema em olhar no olho!

O neguinho se riu e levantou os olhos. Eu meio que fiquei tonto na hora, solucei e fiquei enjoado, que eles eram tudo branco.

-Viu? To firme na paçoca! Agora como tu sabe meu nome, crioulo?

O negrinho arregalou os olhos, meio apavorado e foi dizendo:

-Por Iemanja e Ogun… misifí deve mesmo ser quem eu pensei. Misifi vai ser uma lenda, misifí – ele deu um gole na pinga e seguiu o falatório -  Misifí pode matar todos os K’norr. Misifí pode fazer esses bicho de seis dedo voltar pra de onde vieram.

-Eles tem seis dedos?

-Misifí num tinha reparado? Ate o braço novo de misifí tem seis dedo.

-Bha! Mas não é que tu ta certo?!

-Enfim misifí, ser inteligente não é trabalho de misifí, ser forte é… como eu dizia, misifí pode ser grande…

-Corta essa proza toda e me diz como matar eles todos, neguinho.

-Misifí é impertinente… mas isso é a força de misifí… misifi precisa juntar os cinco Tauras da Profecia, misifi.

-E quem são esses diabo?!

-Um deles é oce, misifí… o outro é o Donan, que misifi pode encontrar perto da fronteira, pros lado de Jaguarão. Ele é o Taura Bárbaro, misifí, tem sangue de alemão e dois metros de altura. Mais forte ate que os K’norriano, misifí.

-Mas bha, Jaguarão é uma loucura de tão longe, tche!

-Misifí se acalme que pra eu nada é longe. Depois, misifí vai atrás da Roberta, misifí, la pros lado de Cruz Alta. Roberta é mais macha que muito bagual, e a melhor jogadora de bolicho e jogo do osso de todos os pampas, misifí.

-Buenas, e o que isso adianta?

-Adianta que ela pode arrancar uma cabeça de K’norriano com um osso bem jogado, misifí.

-Ah ta… então ta bueno. Qual o outro?

-Por ultimo, misifí deve achar Fernando, o Portador da Luz. É um moleque meio tonto da pros lado de Porto Alegre, o menino é tão bondoso que ele pode curar as pessoas tocando nelas, misifí.

-Ala pucha tche! Por que não vamo detrás desse, primeiro?!

-Porque tudo tem sua hora, misifi. Ele ainda não ta pronto. Ainda não pode curar. Tudo a seu tempo, misifí…

-E o ultimo?

-O ultimo tu já achou, misifí, é o Pedro. Esse menino em que eu baixei.

-Como assim “baixou”? É tu e o Fred com esses negocio de interneta…

-Misifí é meio tapado… mas confia em mim que misifi se sai bem. Eu vou destrancar os caminhos de misifí e misifí vai conseguir o “Cajadodeativaçãodaaniquilaçãoabsolutamovidoavapor”, o artefato mágico e tecnológico pra usar a arma secreta dos K’norrianos, o” Canhaoorbitalmovidoavapordaobliteçãototalecompleta”.

-Que?!

-Misifi precisa duma chave pra usar a arma dos K’norrianos contra eles… e eu vou abrir os caminhos pra misifí.

-Abrir os caminhos… Mas bha! Tu é o Tranca-Rua?! Agora que fui me tocar!

-Misifí não é tão burro quanto parece, heim misifí…? – e falando isso, desmaiou. E eu carreguei o entojado de volta pro acampamento.

Cheguei com ele e contei tudo, emocionado com a esperança de acabar com os Ispiuberg. O Povo me recebeu com desagrado, me chamando de maluco. Mas ai o neguinho acordou.

Não vou tomar o tempo de vocês contando da bateção de boca, mas no fim das conta, eu, o tal do Pedro e o Fred nos separemos do resto do grupo, indo em direção a Jaguarão, para achar Donan, o Bárbaro. Rezei baixinho pra que os que tinham ficado tivessem sorte e segui meu caminho.

Pedro foi nos contando sobre as habilidades dele. Ele podia baixar essas entidades loucas pra fazer umas macumba poderosa. Jogava raio quando chamava por Xango, tacava Fogo chamando por Exú e por ai vai. Preferi não discutir, já que se ele pudesse fazer isso tudo, ia ser de grande ajuda.

Fred se aprochegou com nos por acreditar na minha historia. Contou que se havia uma esperança, ele se apegaria a ela. Ficamo ate tarde proseando sobre a vida, eu contando causos e combates, contei pro Pedro sobre nossa primeira empreitada em uma cidade, meses antes, e da tragédia que tinha acontecido. Tu deve de te lembrar, não é? Pois é… foi triste, tchê…

Proximo capítulo: O Bárbaro, a pinga e as Fireballs!

Capítulo 1

http://www.ogranderpg.com.br/blog/extras/cenarios/steampampa-capitulo-1-armagedao/

Capítulo 2

http://www.ogranderpg.com.br/blog/extras/cenarios/steampampa-%E2%80%93-capitulo-2-bota-contra-filho-da-puta/

Capítulo 3

http://www.ogranderpg.com.br/blog/extras/cenarios/steampampa-capitulo-3-o-braco-de-aco-do-bagualaco/

Capítulo 5

http://www.ogranderpg.com.br/blog/extras/steampampa-capitulo-5-o-barbaro-a-pinga-e-as-fireballs/